O “após-tolo” Lameque

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11Dia desses me mostraram um vídeo de um autodenominado apóstolo demonstrando todo o seu “poder”. No vídeo, o culto é interrompido por um obreiro que informa que um suposto feiticeiro tinha ido desafiar o após-tolo afirmando que não havia poder de Deus que pudesse convertê-lo. O que vem depois disso é uma encenação das mais toscas que já vi. O “feiticeiro” caminha até o púlpito no pior estilo das lutas de “vale tudo” (ao som de uma música de suspense para criar o clima) e encara o tal após-tolo Agenor Duque. O após-tolo dá uns gritos e o feiticeiro cai no chão, aos brados da plateia. Mas não para aí, aos gritos de algo parecido com “Holy Espírito”(?) (agora com uma trilha sonora de vitória) a “galera” fica ensandecida, grita e pula, comemorando a vitória do “após-tolo” no UFC gospel.

Agenor continua a manipulação da massa histérica gritando: “Vale a pena ser fiel”, mas o que mais me chamou a atenção foi o que veio após isso. Ele olha com cara de mau para a câmera e ameaça: “Vem desafiar! Vem desafiar!”. O recado está dado: Não ouse mexer ou desafiar um homem com tamanho poder. Uma variação do já famoso e desgastado “Cuidado! Não toque no ungido do Senhor”, também usado como ameaça por muitos líderes de igrejas.

Ao ver isso me veio à mente a história de Lameque. Ela está registrada no capítulo 4 do livro de Gênesis. Ao listar a genealogia daqueles que estavam em oposição a Deus, encabeçada por Caim, Moisés escreve que Lameque havia quebrado o padrão monogâmico estabelecido pelo Senhor, tomando duas esposas: Ada e Zilá. Esse homem um dia se dirigiu às suas esposas nesses termos: “Ada e Zilá, ouvi-me; vós, mulheres de Lameque, escutai o que passo a dizer-vos: Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete” (Gn 4. 23,24).

Lameque se vangloriava de sua maldade e violência. Ele afirma ser ainda pior que seu ancestral Caim, que havia matado seu irmão, Abel. A palavra hebraica, traduzida por rapaz, indica que não passava de uma criança aquele que o havia pisado, o que torna ainda mais desproporcional a sua violência. Mas creio que há algo mais do que a simples exaltação de sua maldade. Ao que tudo indica, relatando o caso às esposas, ele também manda a elas um recado: “Cuidado comigo! Vejam o que sou capaz de fazer, então, andem na linha”, bem parecido com o “vem desafiar” do após-tolo Agenor.

A liderança pelo medo não é algo novo, entretanto, é triste perceber que dentro do cenário evangélico brasileiro, muitos olham para o tal Agenor e o consideram, de fato, um homem de Deus, revelando assim um total desconhecimento do padrão bíblico quanto às qualificações dos pastores, das quais destaco aqui o ser temperante, sóbrio, não violento e inimigo de contendas (1Tm 3.1-7; Tt 1.5-9). Mais ainda, há desconhecimento quanto às características de um falso mestre, ou, no caso, falso apóstolo, como veremos agora.

Começando com a advertência de Pedro, percebemos que os falsos mestres estariam na igreja, introduziriam heresias destruidoras (procure na Escritura algo parecido com o que esse homem faz), seriam seguidos por muitos, estariam movidos por avareza fazendo comércio dos fiéis com palavras fictícias. Louvado seja o Senhor, pois Pedro declara também que o juízo sobre esses não tarda e que sua destruição não dorme (Confira 2Pe 2.1-3).

Na segunda epístola aos coríntios temos também Paulo acusando aqueles que pregavam “outro Jesus” de serem “falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo”, mas que a igreja não deveria se admirar, “porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça;”, além de, como fez Pedro, declarar a condenação deles: “e o fim deles será conforme as suas obras” (2Co 11.13-15).

Tanto Pedro, quanto Paulo, não estavam ensinando nenhuma novidade. O próprio Senhor Jesus, em seu ministério, exortou os discípulos: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.15,16a).

Aos pastores fiéis, fica a palavra de Pedro: “pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” (1Pe 5.2-4).

A liderança bíblica não é estabelecida pelo medo. O líder bíblico, à semelhança do Senhor Jesus, é servo e receberá sua recompensa das mãos do Supremo Pastor.

Quanto ao após-tolo Agenor “Lameque”, ao ver sua grotesca encenação, lembrei-me também de uma frase que li em algum lugar, com a qual concordo plenamente: “apóstolo bom é apóstolo morto” e, para que não me acusem de igualmente incitar a violência, deixo bem claro: não estou desejando a morte do tal Agenor, antes, enfatizando que o último apóstolo autorizado pela Escritura morreu no início do primeiro século.

Pr. Milton Jr.

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