Sobre a autoridade da Escritura

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É muito comum ouvir os cristãos falarem da Bíblia como autoridade e como regra de fé e prática, mas negarem essa afirmação em suas vidas diárias e, infelizmente, não são poucos os que caem, vez por outra, nessa inconsistência. É como já disse alguém, na prática a teoria é outra.

Quanto se fala em autoridade da Escritura é inevitável confrontar o pluralismo existente em nossos dias. Não há como negar que a sociedade, de um modo geral, tem abolido o conceito de verdade. Os absolutos não mais existem e aqueles que têm insistido em tratar de assuntos, quaisquer que sejam, pensando em termos de verdades absolutas são taxados de fundamentalistas.

O homem moderno não tem suportado a ideia de que exista uma verdade absoluta. O que importa hoje é a verdade “própria”. Só para exemplificar: no último senso do IBGE um entrevistador que veio a nossa casa estava explicando que na hora de preencher o formulário ele deveria marcar exatamente o que a pessoa dissesse. A pergunta era mais ou menos a seguinte: “que cor você considera ter?” e, se um negro dissesse que se considerava branco era isso que seria anotado na pesquisa, mesmo que o entrevistador estivesse constatando que não era verdade.

No campo religioso, já no começo do século XIX, Schleiermacher começava a questionar o cristianismo, que cria na exclusividade de Cristo para a salvação do homem. Sua afirmação era de que Deus “está salvificamente disponível, em algum grau, a todas as religiões, mas o evangelho de Jesus Cristo é o cumprimento e a mais alta manifestação da consciência religiosa universal”[1]. Nós continuamos a ouvir isso diariamente em afirmações do tipo: “todos os caminhos levam a Deus”.

O que causa espanto não é a postura do mundo, pois este, conforme ensina João, jaz no maligno (1 Jo 5.19), mas a postura de muitos cristãos que têm comprado a ideia de que não podemos nos posicionar de acordo com o que ensina a Bíblia, pois há outras formas de pensar e todas devem ser levadas em consideração.

MacArthur faz uma pertinente observação: “A maneira moderna de pensar, ‘toda-verdade-é-relativa’, tira a Bíblia do seu pedestal de autoridade e a coloca na prateleira como ‘mais um livro’.”[2]

Muitos têm dito, por exemplo, que não podemos crer “cegamente” no que a Bíblia diz sobre o surgimento do Universo e do homem, pois a ciência afirma que foi de outra forma. Não podemos também afirmar que a ansiedade seja pecado porque há várias teorias sobre a sua causa. Como já citado, a salvação exclusivamente por meio de Cristo também não pode ser proclamada, pois é, no mínimo, intolerância.

Não nos enganemos. No mundo pluralista em que vivemos aqueles que assumirem a crença na autoridade suprema da Escritura serão tidos como intolerantes, arrogantes, bitolados, fundamentalistas e muitos outros rótulos semelhantes, o que é extremamente contraditório, pois mostra que suposto pluralismo das ideias não tolera a ideia de que alguém creia em absolutos.

Qual deve ser, então, a atitude dos cristãs em meio a tudo isso?

Um dos princípios da Reforma Protestante é o Sola Scriptura. É preciso entender que com esse princípio os reformadores estavam rompendo de vez com a ideia da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) que considerava (e ainda considera) a tradição como tendo a mesma autoridade da Escritura. Para os reformados, a Escritura é a palavra final, a autoridade máxima em matéria de fé e doutrina.

Quando escreveu aos tessalonicenses o apóstolo Paulo deu graças a Deus justamente porque eles, ao ouvir a Palavra por meio de Paulo, acolheram “não como palavra de homens e sim como, em verdade é, a palavra de Deus” (1 Ts 2.13). Paulo reconhecia e entendia que a autoridade não era dele, mas da Palavra de Deus.

No capítulo 17 de Atos dos Apóstolos vemos um episódio interessante. Em Tessalônica Paulo havia visitado a sinagoga, e alguns foram persuadidos (17.4). Certamente é a eles que Paulo se refere em 1 Tessalonicenses 2.13, porém muitos judeus alvoroçaram a cidade contra Paulo. À noite Paulo e Silas são enviados para Bereia e, como de costume, dirigem-se à sinagoga (17.10). No versículo 11 os bereanos são elogiados porque recebiam a palavra pregada por Paulo com toda avidez, mas examinavam “as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” (17.11).

A autoridade da Escritura é afirmada por toda a Bíblia. O apóstolo Paulo fazia questão de frisar que seu ensino era firmado na Escritura. Ensinando aos coríntios sobre a ressurreição ele diz que Cristo morreu, foi sepultado e ressuscitou segundo as Escrituras (1 Co 15.3,4). Quando foi acusado de ensinar doutrinas estranhas e provocar motim entre o povo, defendeu-se diante do governador Félix afirmando que servia a Deus“acreditando em todas as cousas que estejam de acordo com a lei e nos escritos dos profetas” (At 24.14).

O próprio Senhor Jesus em seu ministério demonstra a autoridade da Palavra ao ensinar que o povo deveria crer com base nela (Jo 7.38). Depois de sua ressurreição ele apareceu a dois discípulos no caminho de Emaús, que não o reconheceram (Lc 24.13-16). O texto diz que eles estavam entristecidos e preocupados e Jesus questionou-os sobre a razão dessa tristeza (24.17). A explicação que deram é que aquele que eles achavam que redimiria a Israel morreu e o seu corpo havia sumido (24.18-24). Jesus os repreendeu duramente dizendo: “Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (24.25-27).

Este episódio não deixa dúvidas. Os discípulos viram a morte e ouviram a notícia de que o corpo havia sumido, mas essa não deveria ser a palavra final sobre o assunto. A Palavra final era aquilo que as profecias afirmavam que iria ocorrer e Jesus, então, apela à autoridade da Escritura para ensinar os discípulos.

Sendo então a Escritura a Palavra autoritativa de Deus, é ela que deveria determinar tudo o que devemos fazer e também como fazer. Infelizmente esta não tem sido a realidade em nossos dias. Temos substituído o que a Bíblia ordena por aquilo que achamos que dá certo. É o pragmatismo do nosso mundo pluralista ditando o modo de agir da Igreja de Deus.

Tratando desse tema, James Boice escreve: “Confessamos sua autoridade [da Bíblia], mas não levamos em conta sua habilidade de fazer o que for necessário para atrair descrentes a Cristo, capacitar-nos a crescer em piedade, proporcionar direção para nossa vida, e transformar e revitalizar a sociedade. Assim, substituímos o evangelismo bíblico por coisas tais como a metodologia dos publicitários, experiências ‘religiosas’ especiais em vez de conhecimento da Palavra para promover e garantir a santificação, revelações especiais para discernir a vontade de Deus para nossas vidas, e uma confiança no poder dos votos e dinheiro para mudar a sociedade.”[3]

A Igreja de Deus é duramente golpeada quando seus filhos não têm a Escritura com autoridade em suas vidas. Como bem afirma Hanko: “Devemos entender que a autoridade da Escritura é a autoridade de Deus mesmo. Dizer que a Escritura é a Palavra de Deus é dizer que ela tem toda autoridade. Negar isso é negar a Deus; contradizer isso é contradizer o próprio Deus.”[4]

Em um mundo pluralista e em tempos que muitos crentes têm procurado apoiar sua fé em questões subjetivas, devemos recorrer à autoridade suprema da Escritura a cada dia.

Fujamos da hipocrisia de negar com atos o que dizemos crer e roguemos ao Senhor que nos dê forças para continuar crendo na autoridade da sua Palavra. Não tenhamos medo de confessar a autoridade da Escritura, pois ela emana do próprio Deus.

Pr. Milton Jr.

[1] Citado por Heber Carlos de Campos no artigo “O pluralismo do pós-modernismo” em Fides Reformata. Vol 2 n° 1. São Paulo: 1997, p. 6

[2] John MacArthur Jr. Como obter o máximo da Palavra de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 58

[3] James M. Boice. O Evangelho da graça. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 64

[4] Ronaldo Hanko. A autoridade da Escritura. Publicado em www.monergismo.com, acessado no dia 21/01/2009

Milton C. J. Junior
Milton C. J. Junior
Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano "Rev. José Manoel da Conceição" e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista em aconselhamento bíblico pelo Seminário Palavra da Vida. Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil desde 2002, servindo à Igreja Presbiteriana da Praia do Canto desde 2007.

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