O estudo não mata, a falta dele sim

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13 de março de 2019

“A letra mata” é o brado de muitos evangélicos, inimigos do estudo. Tirando o texto de seu contexto, eles o usam para reprovar aqueles que se dedicam a estudar as Escrituras. O que querem dizer, então, é que o muito estudar acaba matando a igreja e causando divisões.

É claro que não é isso que Paulo estava querendo ensinar quando escreveu aos Coríntios, haja vista que ele mesmo era bastante “douto”. Falando acerca de si mesmo Paulo afirmou que foi “instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados” (At 22.3). Portanto, quando o apóstolo usou essa expressão (2Co 3.6), estava na verdade condenando a tentativa de justificação pela lei (letra), ou seja, a condenação era do legalismo e não do estudo.

Conquanto seja um erro achar que o estudo sério da Escritura leva à aridez e à morte, isso não pode ser dito quanto à falta de estudo ou de entendimento, isto sim, mata o cristão e a igreja. Exemplos bíblicos a respeito desta verdade são abundantes, mas cito aqui apenas a afirmação de Deus por meio de Oséias: “o meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento” (Os 4.6) e o anúncio de juízo de Deus a Israel, por meio de Isaías: “Portanto, o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento” (Is 5.13).

A despeito disso, infelizmente, abundam os exemplos de líderes que, em decorrência de sua posição e de sua oratória, levam muitos ao erro. Isso ocorre muitas vezes pela falta de um estudo sério do texto bíblico, ainda que com sinceridade, mas também porque muitos deles não se contentam em expor a interpretação natural do texto e vivem à procura de “algo novo”, algo que ninguém notou no texto. O resultado, então, são sermões cheios de impressões pessoais acerca da Escritura.

Certa vez um amigo me enviou um link de um sermão de um pastor que pregava para uma multidão, perguntando a minha opinião sobre um assunto abordado no sermão. Em determinado ponto (que nada tinha a ver com a dúvida desse amigo) o pastor falava a respeito da consequência do pecado de Saul. Por causa do seu pecado, dizia ele, Davi foi colocado como rei e ouviu da parte de Deus que ele reinaria para sempre, por meio do seu descendente.

A sequência me fez lembrar do meu professor de grego da época do seminário. Quando algum aluno estava respondendo ao exercício de tradução e na metade da tradução perguntava se o exercício estava certo, ele dizia: “Sim, mas cuidado para não ser como o rapaz que pulou de um prédio de vinte andares e ao chegar no décimo disse: até aqui, tudo bem”.

Pois bem, o pastor, diante dos seus ouvintes, continuou dizendo que não poderia afirmar com certeza, mas que tinha uma teoria, uma opinião dele:

“Se o que Deus tirou de Saul e deu para Davi é o que a gente vê Deus falar com Davi depois… O que Deus fala com Davi depois? Você vai reinar para sempre. O que que Deus tava prometendo pra Davi, Deus tá dizendo, nunca vai faltar descendente seu que se assente nesse trono. Deus não estava falando só de uma linhagem duradoura, mas o que a Bíblia explica depois é que Deus tava dizendo o seguinte: dessa sua linhagem, que vai haver sucessão atrás de sucessão, virá o Cristo, o Messias, e porque este reinará para sempre e ele é da sua casa, da casa de Davi, então o reinado de Davi, indiretamente, vai durar pra sempre. Se foi isso que Deus tirou de Saul e deu para Davi e aqui Deus tava dizendo: você teria confirmado seu reino para sempre, o que que Saul jogou fora? Não foi o seu reinado, não foi o reinado de Jônatas, o que ele jogou fora foi o privilégio de ter o Messias vindo da sua própria linhagem. Se Saul tivesse sido fiel ao Senhor, talvez hoje a gente taria cantando que Jesus é o Leão da tribo de Benjamim, em vez da tribo de Judá”.

Aqui você pode ter, pelo menos, duas reações. A primeira é de dizer que o pastor foi humilde e não foi categórico a respeito de algo que não tinha certeza. Contudo, o povo que estava ali ouviu a “tese” e muitos podem ter saído com a impressão de que a infidelidade de Saul foi a causa primeira de Deus ter retirado o reinado dele. As implicações podem ser variadas, mas uma delas seria o fato de um pecado cometido por você ter o poder de anular os planos que Deus tinha para a sua vida.

Mas se você é um leitor atento da Escritura, se você estuda seriamente em vez de tirar conclusões de um texto sem considerar toda a revelação de Deus, saberá que isso tudo é um absurdo e que um pregador deveria ter mais cuidado, sobretudo ao falar de um tema tão importante como o reinado eterno do Messias.

Apesar de a tese ter uma certa “lógica”, ou seja, se Davi ouviu isso de Deus porque estava no lugar de Saul, possivelmente quem teria ouvido a promessa seria Saul, caso tivesse sido fiel, ela não se sustenta de forma alguma. Já no livro de Gênesis, quando Jacó proferiu a bênção sobre os seus filhos, disse a Judá, : “Judá é um leão novo. […] O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão” (Gn 49.9,10 – NVI).

O que ocorreu na história de Saul foi que o Deus que providencialmente dirige a história de forma soberana, usou o pecado de Saul a fim de cumprir seu plano eterno, que havia sido anunciado na história à Judá e isso muito antes de o povo ser organizado como nação e muito antes de pensarem em ter um rei. Jesus nunca seria o Leão da tribo de Benjamim, por mais fiel que fosse Saul, pois antes de prometer o reinado à Davi, Deus já o havia feito a Judá!

O erro do pastor não foi ensinar algo de que não tinha certeza, mas não ter certeza a respeito de algo que Deus revelou de modo abundante na progressividade da revelação bíblica.

Este é só um exemplo do que a falta de estudo pode fazer. Ela pode levar um pregador a ensinar o erro a milhares de pessoas que, muitas vezes, diferente dos bereanos, não examinarão “as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram [são], de fato, assim” (At 17.11). Mais uma vez enfatizo: Não é o estudo, mas a falta de estudo, isto sim que tem o  poder de matar uma igreja.

Busque aprofundar-se cada dia mais no conhecimento da Escritura a fim de não ser levado por todo vento de doutrina (Ef 4.14). Procure estar numa igreja em que os pastores buscam cumprir o que foi ordenado por Paulo à Timóteo: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (1Tm 4.16).

Pr. Milton Jr.

Milton C. J. Junior
Milton C. J. Junior
Graduado em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano "Rev. José Manoel da Conceição" e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Especialista em aconselhamento bíblico pelo Seminário Palavra da Vida. Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil desde 2002, servindo à Igreja Presbiteriana da Praia do Canto desde 2007.

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